terça-feira, 27 de outubro de 2015

Infância e consumo: por que as crianças querem tanto?

         Por que as crianças querem tanto? Por que as crianças pedem tanto? Por que as crianças consomem tanto?  O mercado de produtos infantis está cada vez maior. O mercado de consumo, já percebeu que as crianças são grandes e poderosas consumidoras. Mas como as crianças podem ser poderosas consumidoras se elas não trabalham, são dependentes economicamente e não tem poder de decisão?
            Estas questões são, de fato, instigantes se pensarmos na condição de dependente da criança. Mesmo dependendo da decisão do adulto para consumir, ela consume, e muito. A construção social da criança, ao longo da história, já teve diversos lugares e significações. Nem sempre as crianças tiveram tamanha importância social como na atualidade. Em outros momentos da história a criança era simplesmente desconsiderada, sem qualquer relevância. Hoje em dia, a posição social da criança é muito determinante, tanto é que estamos aqui falando delas, assim, a criança ocupa um lugar exclusivo de grande destaque.
            O reconhecimento social da criança, em certa medida, é importante, pois, o contrário, trazia para este período da vida, grande sofrimento e opressão. Há alguns anos as crianças eram tratantadas como propriedade dos pais, sofriam abusos e eram, muitas vezes, submetidas a tratamentos violentos o que ocasionava um grande trauma posterior ao sujeito adulto. Porém, nos dias atuais, podemos dizer que vivemos uma situação oposta. As crianças têm um excesso de poder, sendo exercido no âmbito familiar. A criança decide o que quer comer, o que vai ver na televisão, onde vai dormir e o que quer consumir. Os pais ficam submetidos aos desejos dos filhos o que também causa grandes transtornos. Hoje temos crianças obesas, que não brincam na rua - ficam assistindo televisão e jogando vídeo game - e que exigem muito a presença dos pais, não conseguem fazer quase nada sozinhas, não têm autonomia.
            O grande fator complicador desse cenário é que as crianças não têm condições de tomar decisões, pois elas são seres em formações e que, justamente por isso, não adquiriram a capacidade de discernir o bom do mal, o saudável do prejudicial, o excesso do escasso, por isso, devem ser orientadas. Aí está o papel fundamental dos pais: orientar, educar e preparar seus filhos para a vida.
            Bem e qual a relação do consumo infantil com o lugar da criança na sociedade? A criança tomou um lugar tão preponderante, que ela passou a decidir e exigir dos pais o que quer consumir. Quando a criança pede algo para os pais, seja um brinquedo, uma roupa, um acessório, alimentação, etc, os pais, praticamente, se sentem na obrigação de atender aos desejos dos filhos. Receiam que as crianças possam ficar frustradas com um não e muitas vezes, argumentam que o filho não aceita o não. Não aceita o não? Nesse argumento está a maior prova do poder de decisão das crianças, os pais possibilitam que as crianças definam, por conta própria, o que querem.

            O poder de consumo das crianças é oferecido pelos pais. É claro que numa sociedade consumista é impossível, não consumir, mas é importante que os pais decidam o que a criança deva consumir essa decisão não deve ser da criança. Os pais devem fazer essa avaliação a partir daquilo que será melhor para a criança, como exemplo, a alimentação adequada, horário de dormir, fazer a lição, brincar e estudar, enfim, toda a rotina da criança, e aquilo que ela irá consumir, deve ser pensado e definido pelos pais, propiciando o bem estar da criança, afinal, os pais tem a obrigação de cuidar e proteger seus filhos e essa função não pode ser transferida para mais ninguém.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

E quando a separação acontece?

         Quando um casal se separa, a dor é compartilhada por toda a família. Não só as crianças sentem muito a separação dos pais, assim como os próprios pais, que precisam lidar com o fato de que toda a expectativa de felicidade, construção de uma família, planos para o futuro, acaba de ser destruído. Desta maneira, os pais devem novamente reconstruir suas vidas e lidar com a frustação do fim de um relacionamento.
            Muitos pais levam a criança para psicoterapia, por estarem em processo de separação e temem que algo possa repercutir na criança, mesmo quando a criança, em algumas situações, não apresenta alteração no comportamento. Na entrevista com a mãe ou o pai, percebo, algumas vezes, que a dor está muito maior para eles do que para a própria criança. Desta maneira, em situação de separação devemos estar muito atentos ao fato de como os pais estão encarando o momento. Muito da repercussão, nessa ocasião, tem a ver de como os pais estão lidando.
            Rancor, raiva, ressentimento, mágoa, são sentimentos que inevitavelmente os pais podem endereçar aos filhos, sem que tenham o controle sobre isso. Nesse processo a mãe pode agredir o pai, o pai difamar a mãe e assim os filhos ficam sofrendo com o destino dessa separação.
            Acredito que, muitas vezes, uma separação é inevitável. Os pais não conseguem conviver juntos, se agridem, se magoam e não mais desfrutam da presença do outro. As crianças presenciarem esse tipo de relação não é nada saudável, assim, é melhor que os pais assumam a impossibilidade de conviverem juntos, possibilitando, um ao outro, a chance de ser feliz. A separação é um direito que os pais têm, nunca temos a garantia de que um relacionamento irá dar certo. Mas os pais têm a responsabilidade de executar esse processo da melhor maneira possível para os filhos e, essa melhor maneira possível, tem a ver com um não agredir o outro. Uma criança sempre vai amar os pais da mesma maneira, assim, elas não querem ouvir falar mal de seu pai ou sua mãe.
            Rubem Alves escreveu um livro infantil que trata sensivelmente da separação entre os pais. O livro de tão poético, chega a ser difícil para o linguajar infantil, porém, a poesia ressoa aos ouvidos de forma tão singela que quando leio este livro para as crianças percebo o quanto elas são atingidas pela mensagem sem que eu explique muita coisa.
            A história retrata o amor da selva (pai) e do mar (mãe). Por serem de universos tão diferentes eles se apaixonaram um pelo outro, apaixonaram pelas diferenças da qual viviam e um queria explorar o universo do outro, assim, dessa paixão, nasceu uma criança. Primeiramente, o mar foi morar na selva, mas ela não conseguiu se adaptar e sentiu muita falta do ambiente marinho. Percebendo que o mar estava triste, a selva se disponibilizou a morar no mar. Mas dessa vez a selva que passou a ficar triste, pois ele não se adaptou ao mar e não conseguiu ficar afastado dos mistérios e encantos da selva.
            Percebendo que juntos eles estavam muito tristes resolvem se separar para que possam resgatar a felicidade que morava dentro deles. E a criança? Bem, a criança continua sendo selva e mar. Ela se sente a vontade no ambiente marinho e conhece cada detalhe da selva e isso nunca poderá ser mudado.
            Deixem que seus filhos sejam selva e mar, deixem que eles circulem no ambiente paterno e materno, sem medo ou receio em estar fazendo isso, dessa forma, a separação tende a ser o menos traumática.
            E se os pais não conseguem lidar com o momento da separação, que legitimamente, é um momento difícil, não hesitem em procurar ajuda que, muitas vezes, não é apenas para a criança, mas principalmente para os adultos.
           


            

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Autismo e Psicanálise: uma possibilidade de tratamento?

          A psicanálise encontra grande resistência, entre profissionais de saúde e pais de autistas, para tratamento de autistas. Médicos, pais de autistas, profissionais da educação, recomendam, declaradamente, o não tratamento de crianças autistas com psicanalistas, argumentam que é perda de tempo. Muito do ódio relacionado à psicanálise, para o tratamento de autistas, vem de um argumento de que psicanalistas culpam a mãe pelo autismo da criança. Outro ponto, é que a psicanálise não irá treinar o comportamento da criança, no sentido da substituição de comportamentos inadequados por adequados, o que muitos consideram inapropriado, argumentando que a criança autista, deve adaptar seu comportamento, para ter um convívio social mais apropriado e digno.
            Sou uma psicanalista que atende autistas. Fui apresentada ao autismo, não pela psicanalise, mas por um menininho que, para sempre, mudou minha vida. E é a partir da minha experiência com crianças autistas e em especial, com esse menininho, que me autorizo a falar sobre a relação da psicanálise e o autismo.
            É fato que a psicanálise enfatiza muito a relação mão-bebê. Isso não tem a ver só com a clínica com autismo, mas com a clínica com crianças de uma forma geral. O sintoma da criança, na maioria das vezes, tem forte relação com as demandas parentais e, através do sintoma, a criança responde às demandas dos pais. Assim, um tratamento psicanalítico com crianças, sempre convoca os pais, para que, junto com o psicanalista, possam refletir sobre o sintoma do filho, não no sentido de culpar os pais, mas acima de tudo responsabilizá-los. A culpa não pode caber no tratamento psicanalítico, pois àquilo que os pais convocam de seus filhos é inconsciente, então, não podemos culpar uma pessoa de algo que ela nem mesmo tem consciência de que está fazendo.
            O tratamento com autistas não poderia ser diferente. Os pais também serão convocados para uma reflexão sobre o que acontece com a criança, sobre como eles percebem e enxergam o filho, sobre como eles encaram o autismo da criança. Ter um filho autista é de uma exigência imensa, assim, acolher a demanda dos pais e escutar as fantasias, desejos, decepções que circulam diante do filho é de extrema importância.
            Como já mencionei fui apresentado ao autismo por uma criança autista. Na verdade, o diagnóstico de autismo demorou a se impor. A criança foi encaminhada para tratamento com uma suspeita de autismo, por não falar, por não fixar o olhar e por ser apegada a objetos. Apesar de todas as características de autismo, preferi não fechar o diagnóstico, pois a criança só tinha dois anos e meio. A dificuldade em fechar diagnóstico se tornou ainda mais árdua, pois no percurso do tratamento, a criança tinha uma melhora significativa, interagia cada vez melhor, não era mais apegada a nenhum tipo de objeto, porém a dificuldade da linguagem permanecia, apesar de estar falando muitas palavras e formulando frases pequenas, ainda tinha dificuldades em entrar no plano no discurso. O diagnóstico de autismo foi fechado quando a criança tinha sete anos e meio, por mim e pelo médico.
            Durante tantos anos atendendo essa criança e, posteriormente, atendendo outras crianças autistas, fui percebendo como cada criança vai encarando e lidando com seu próprio autismo. Esse menininho me mostrou o quanto ele ia encontrando recursos para enfrentar suas limitações e a perceber que ele também tinha potencialidades. Sua dificuldade em falar, muitas vezes, era substituída pela escrita. Assim, ele produzia, durante as sessões, materiais desenhados e escritos, realmente incríveis. Ele produzia histórias, construía livros, e dessa forma, ia revelando sua subjetividade para mim. Aos poucos, o discurso foi melhorando e atualmente ele se coloca, oralmente, muito melhor, porém, quando tem muita dificuldade e me explicar alguma coisa pede para mostrar um vídeo na internet para esclarecer o tema. Enfatizo ainda, que a disponibilidade da mãe com o tratamento da criança, sempre presente nas entrevistas comigo e sempre buscando pensar e refletir sobre a questão do filho, foi fundamental para um bom percurso do tratamento.
            Uma autista famosa chamada Temple Grandin, através de seus livros, publicações e palestras, pôde deixar vir à tona a grande capacidade, muitas vezes, silenciada e escondida dos autistas. Muitas das conquistas de Temple vieram justamente, por ela ser autista. Temple Grandin  tem mestrado e doutorado em zoologia e mais de quatrocentos artigos publicados em sua área de especialização. Para quem se interessar por essa história fantástica, existe um filme sobre a vida de Temple Grandin, cujo título é seu nome próprio.
            Encerrando o artigo cito outra autista chamada Carley Fleischmann, que também escreveu um livro. Até a adolescência Carley não emitia nenhuma palavra. Os parentes de Carley desconheciam o fato de que ela sabia escrever, até que, um dia, ela deixou uma mensagem no computador com as palavras “dor” e “ajuda”. A partir desse dia Carley nunca mais deixou de escrever e, escreveu um livro com a ajuda do pai. Sobre sua experiência, Carley diz: “O autismo me trancou em um corpo que eu não posso controlar”, e ainda: “As pessoas têm muita de suas informações vinda dos chamados especialistas, mas eu acho que esses especialistas não conseguem dar uma explicação a algumas questões”. *
            Carley nos ensina que os autistas devem ser escutados, ou lidos, já que a maioria deles tem facilidade em escrever do que falar. Independente da especialidade que irá tratar um sujeito autista é digno que ele possa fazer parte do tratamento, de modo que se expressem e participem ativamente.  Assim, a psicanálise é um tratamento possível para autistas? Enquanto possibilitar um espaço em que o sujeito autista posso se colocar e expressar, acho que a psicanálise tem um papel determinante.
Os autistas têm muito a nos ensinar...

*As falas de Carley foram retiradas de um blog da revista Super Interessante: http://super.abril.com.br/blogs/como-pessoas-funcionam/entenda-e-experimente-como-funciona-a-mente-de-um-autista-com-a-ajuda-de-uma-adolescente-que-sofre-dessa-condicao/




terça-feira, 6 de outubro de 2015

Queixa escolar: a escola que adoece

                Muito tenho pensado sobre as queixas escolares que recebo no consultório. As crianças são encaminhas para médicos, psicólogos, fonoaudiólogos com suspeita de terem déficit de atenção e/ou hiperatividade, ou algum outro problema que as impeça de aprender.
            Em avaliação com as crianças, com queixa escolar, percebo o quanto elas têm recursos cognitivos e total capacidade de aprender. Emocionalmente, muitas vezes, essas crianças também não parecem ter qualquer tipo de inibição, assim, por que elas não aprendem? Para mim essa questão tem sido cada dia, mais inquietadora, o que me leva a questionar o sistema escolar.
            É fato que o sistema escolar está ultrapassado. As disciplinas, a metodologia, a didática. O sistema de ensino parece não se adequar, às mudanças sociais, tecnológicas, e econômicas.
            Considero o currículo escolar inadequado, pois permanece o mesmo desde há muito tempo. Os alunos não têm espaço de criação, busca do conhecimento, de forma que, a criança deve se adaptar a fórceps ao currículo, e aquelas que não se adequarem provavelmente terão uma consulta marcada com o psicólogo e neuropediatra.
            Por que a escola não abre espaço para criação, discussões sobre economia, empreendedorismo, política, e outras experiências fora do atual currículo? Por que o conhecimento mais enfatizado está no currículo formal? Saímos da escola e nos questionamos, para que serviu tudo isso? Onde vou aplicar esses conhecimentos? Conhecimentos que muitas vezes não têm absolutamente nada a ver com as afinidades do sujeito, assim, ele sai da escola e a partir das experiências, fora da escola, seu conhecimento, de fato, começará a se formar. A escola não dá espaço para a individualidade, para que as crianças conheçam suas verdadeiras habilidades, para que possam imprimir seus talentos e aptidões. A escola oprime, deprime, faz com o sujeito se sinta incapaz, principalmente àqueles que não conseguem atingir as expectativas do sistema de ensino.
            As crianças que são encaminhadas para médicos e psicólogos são na verdade, crianças brilhantes, crianças criativas, crianças inovadoras que não têm espaço para expor suas potencialidades. Essas potencialidades devem assim, ser reprimidas. A criança deve se adaptar, mas essa adaptação tem um alto custo, a doença.
            Não estou negando o fato de algumas crianças terem algum tipo de inibição emocional que possa afetar a aprendizagem. Esses casos existem e precisam de acompanhamento, porém, me chama muito atenção o excessivo número de crianças que são encaminhadas para médicos e psicólogos. Elas são todas doentes? Será que estamos falando de uma epidemia? Só consigo imaginar, que tais encaminhamentos se tratam de uma epidemia que está atingindo as crianças na modernidade.
            Crianças sem espaço na escola se tornam crianças doentes e por consequência adultos doentes. Essa dificuldade de adequação causa à criança um grande sofrimento. Ela não consegue corresponder às expectativas e por consequência, se sente fracassada e incapaz. Constrói uma identidade em trono de um fracasso, que nem mesmo é real. A partir disso uma demanda para tratamento realmente se constrói. Essas crianças se tornam inseguras, estressadas, com fobia à escola e com medo de cometerem erros e serem repreendidas.
            O erro faz parte do processo de aprendizagem, é um indicativo de nossa forma de ser, de nossas habilidades e o que devemos melhorar. Lidar com estas questões como uma patologia, pode ter consequências avassaladoras para as crianças.

            Vamos permitir as crianças serem criativas e inovadores, em vez de serem crianças doentes. Que lugar vale mais a pena?


terça-feira, 29 de setembro de 2015

E quando nasce um irmão(a)?

          Muitas crianças apresentam comportamento de ciúmes com a chegada de um irmão (a). Mesmo quando ela pede para a mãe um irmão, ter, de fato um irmão, implica em muitas mudanças.
          Antes da chegada do irmão a criança era sozinha e tinha as atenções toda para ela, a partir da existência de um irmão, ela tem que aprender a dividir. Dividir a atenção dos pais e de toda a família, pois o novo membro da família, inevitavelmente, chamará toda atenção, afinal, ele é novidade.
         Com a chegada do irmão a mãe não vai poder oferecer tantos cuidados para o filho primogênito, afinal, ela tem que zelar por um recém-nascido, o que é uma tarefa de grande exigência. Por mais que a mãe tente dividir a atenção de forma igual, ela se frustrará com a tentativa, pois, o recém-nascido exigirá muito cuidado, é um bebê que acabou de chegar, que a mãe ainda não conhece, precisa se adaptar ao bebê. Muitas mães se frustram por não conseguirem equivaler à atenção entre o filho mais velho e o bebê que acabou de chegar.  Nesse sentido a presença do pai, ou outros membros da família, é muito importante. O pai tem condições de oferecer os cuidados que a mãe não consegue proporcionar à criança mais velha, e dessa maneira, ela pode entender que a mãe necessita cuidar do bebê.
            É claro que cada criança terá uma reação diante do nascimento de um irmão, principalmente, dependendo da idade da criança mais velha, se a diferença de idade entre a criança e o novo irmão é grande ou pequena. Se for grande a criança mais velha se acostumou há muitos anos a ser filho único, a ter a atenção só para si, se for pequena a criança mais velha também precisa de muita atenção e cuidado. Pai e mãe precisam administrar juntos, essa situação, essa função não é unicamente da mãe, como muitas vezes, acontecem nas famílias. A mãe não irá conseguir sozinha, lidar com a questão.
            Outro ponto muito recorrente é a criança mais velha ter comportamentos regredidos após o nascimento do irmão. Se parou de chupar chupeta, volta a chupar, se parou de fazer xixi na cama, volta a fazer, se parou de mamar na mamadeira, pede para a mãe a mamadeira novamente, algumas pedem, inclusive, para mamar no peito da mãe. É importante que os pais mostrem para a criança mais velha que há uma diferença de idade entre ela e seu novo irmãozinho. Assim, os pais não podem tratar as crianças de forma igual, por mais que a diferença de idade seja pequena, pois, o irmão mais velho já superou algumas questões em relação ao irmão mais novo e isso deve ser enfatizado para a criança. O irmão mais velho consegue fazer algumas coisas que o irmão mais novo não consegue. Desta maneira, com a chegada do irmão, os pais devem enfatizar a diferença que há entre os irmãos (diferença de idade, de gênero) e não tentar igualá-los, pois isso pode ser muito sofrido para a criança, que tentará ser de um jeito que ela não é.
            É também natural que o irmão mais velho deseje matar, eliminar, desaparecer com o irmão mais novo, pois o mais novo é considerado um sujeito que invadiu o espaço da criança mais velha, ou seja, um invasor. É normal, crianças mais velhas, dizer que gostariam que o irmão voltasse para a barriga da mãe, que fosse morar na casa de outra pessoa e até que morresse. É importante que os pais não se apavorem ou reprimam esse sentimento da criança mais velha. Devem acolher esse sentimento e ao mesmo tempo ajudar a criança a lidar, pois, o irmão mais novo não será eliminado de cena. Assim é importante dizer para criança: “Eu sei que está sendo difícil para você dividir seu espaço com seu irmão(a), pois você era sozinho e tinha tudo para você. Ter um irmão pode ser realmente muito chato em alguns momentos, mas também pode ser muito legal, pois agora você terá alguém para brincar. Também acredito que como irmão mais velho, você poderá ajudar seu irmão em muitas coisas, afinal, você já aprendeu coisas que seu irmão ainda deve aprender”.
            Reações diversas são absolutamente normais, entre as crianças, após o nascimento de um irmão. É fundamental que pai e mãe protagonizem as ações que levarão a criança mais velha a lidar melhor com o fato de ter um irmão e não ser mais sozinha. A chegada de um irmão, apesar de difícil, pode ser valiosa para a criança, a partir desse momento ela irá aprender uma valorosa lição: saber dividir.



            

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Como ensinar às crianças que existe dor?

Quando menciono a palavra dor, não me refiro a uma dor dramática, de uma situação trágica, que tenha acontecido na vida da criança, como morte, separação e grandes perdas. Refiro-me a dores cotidianas, a frustação, falta de dinheiro, desentendimento dos pais, mudança de cidade, etc.
            Muitas vezes os pais querem proporcionar para os filhos uma vida perfeita, ou quase perfeita. A questão é que estamos muito, mas muito longe da perfeição. Nossa vida é cheia de dificuldade, perrengues e limitações, assim, por que não permitir que as crianças participem dessas dificuldades? Por que poupar a criança da situação que a família está passando? Que o dinheiro está curto, que não dá pra comprar um grande presente de natal, apenas uma lembrancinha e que, aquele tênis da moda vai ter que ficar para ano que vem.
            Percebo os pais se queixando do quanto às crianças são ansiosas, do quanto elas não sabem esperar, do quanto elas querem tudo no tempo delas, assim, eles procuram um psicólogo para que a criança possa lidar com essa ansiedade, mas, essa tal ansiedade, tem a ver com o que?
            Talvez os próprios pais, ainda não tenham percebido que eles mesmos não estão ensinando a criança esperar, lidar com a dificuldade, ou seja, lidar com o que chamei no título desse artigo de dor. Quer colo? Ofereço colo. Quer a chupeta? Toma a chupeta. Quer ir ao McDonalds? Vamos ao McDonalds. Quer tal brinquedo? Ofereço tal brinquedo. Quer ir à Disney? Vou comprar a passagem.
            Como essas crianças vão lidar com a frustação? Como elas vão ter a noção da situação financeira de suas famílias? Como elas vão saber da realidade da qual fazem parte?
Parece que os pais se esforçam, enormemente, em proporcionar aos filhos um conto de fadas. Uma vida sem restrições, sem limites, sem frustações. A vida não é perfeita. Não é para mim, não é para você e nem para as crianças.
Para à criança não se pergunta o que ela quer comer, que horas ela quer dormir, o que ela quer ver na televisão, se ela quer sair com os pais ou não. Uma criança não tem condições de decidir, afinal, ela é um ser imaturo e ainda tem muitas coisas para aprender antes de tomar decisões.
Muitas vezes o que causa ansiedade na criança é que ela tem que decidir sem ter condições pra isso. Assim os pais devem decidir por ela, mesmo que isso cause transtornos para a criança, mesmo que a decisão dos pais não vá de encontro ao que a criança deseja, dessa forma, ela aprende a se frustrar e percebe que nem tudo é do jeito dela.
A dor existe e devemos conviver com ela.
Pra encerrar o artigo cito o título de uma obra de Rubem Alves: “Ostra feliz não faz pérola”, ou seja, através das frustações as crianças irão encontrar formas criativas para lidar com os problemas.

           

           



terça-feira, 15 de setembro de 2015

Problemas de aprendizagem?

Uma das queixas mais recorrentes para encaminhar crianças para acompanhamento psicológico é o fracasso escolar. Dificuldade de alfabetização é o problema mais comum, dentre os problemas de aprendizagem. Crianças com seis, sete, oito anos e até mais velhas, aparecem na clínica, encaminhadas pela escola, muitas vezes não alfabetizadas ou semi alfabetizadas. Mas qual o problema dessas crianças? Elas teriam realmente problemas para aprender? Elas teriam alguma incapacidade para concentração? Elas seriam muito agitadas, por isso não aprendem? Elas teriam algum problema neurológico que as impeça de aprender?
Percebo que a maioria dessas crianças não tem nenhum problema neurológico ou cognitivo que as incapacite em aprender. Assim, a pergunta persiste, por que não aprendem? No período de avaliação com elas, percebo a grande capacidade que têm para aprender, memorizar, argumentar, discutir alguma questão que as interesse. Porém, em situação de sala de aula, essa capacidade não aparece e o que realça são cadernos vazios, notas abaixo da média e ausência de participação em sala de aula. Dentro desse contexto, acredito que podemos refletir em dois pontos importantes que podem afetar em tal questão:
1-        Instituição Educacional – já passou da hora da instituição educacional                                    questionar a sua forma de atuação. É notório que o movimento que a educação faz é culpabilizar o aluno em vez de promover uma reflexão sobre o que pode ser mudado nessa relação. A educação tenta uniformizar os alunos de forma a exigir um desempenho semelhante entre eles, porém, dentro desta perspectiva, se perde de vista a singularidade do sujeito nesse processo, pois nem todas as crianças “funcionam” de forma igual. Por exemplo, uma criança de seis anos pode estar preparada ou não para o processo de alfabetização e não tem nada de errado nessa diferença. Outro ponto de destaque é a ausência dos meios de tecnologia em sala de aula. A internet não pode estar fora da sala de aula. As crianças já nascem inseridas nesse meio tecnológico, assim, já criam uma intimidade com o mesmo. Quando vão para a escola, onde está o computador? Onde estão os recursos tecnológicos? O conhecimento já não pode ser mensurado como há tempos atrás. Na minha época de criança, ter acesso ao conhecimento, só por meio da professora, ou através de uma pesquisa na biblioteca. Hoje em dia a criança já entra em sala de aula com um conhecimento prévio e isso não é explorado pelo professor, que é instruído a ficar preso em um cronograma e metodologias pré-estabelecidas. Assim questiono a vocês, essa escola é interessante para esses alunos?
2-               Responsabilizar as crianças sobre o processo de aprendizagem: em alguns casos percebo que os pais não têm responsabilizado seus filhos para aprender. Quem não estuda não aprende, quem não pesquisa não aprende, quem não se esforça não aprende, não é simples? Vejo os pais fazendo lição, fazendo pesquisa, organizando os cadernos dos filhos, mas isso não seria função das crianças. Não são as crianças que devem mostrar para os pais a lição feita? Os pais não deveriam apenas servir de suporte? Uma criança me disse uma vez que não entregou o dever de casa por culpa da mãe. Perguntei para a criança o que a mãe tinha a ver com a lição dela, ao que ela não excitou em responder que era a mãe que deveria realizar a lição. Para aprender é necessário ser responsável. Assumir minimamente a responsabilidade nesse processo é fundamental para adquirir conhecimento, pois ninguém pode aprender por nós, ninguém pode fazer esse serviço pra gente. Incentivar as crianças a buscar conhecimento é importante para que elas se sintam mais ativas nesse processo, para que percebem suas próprias habilidades e interesses. A criança que é responsabilizada por aprender, se sente mais curiosa e propícia a buscar seu próprio conhecimento.
Se analisarmos esses dois pontos atentamente, podemos nos deparar com questões contraditórias, como: a criança já tem um conhecimento prévio e a criança precisa ser incentivada a buscar o conhecimento. O acesso ao conhecimento, atualmente, está muito mais acessível do que na minha infância e, justamente, por essa facilidade as crianças perdem o interesse em buscar e se limitam a ficar atentas apenas àquilo que elas gostam, como jogos na internet.
A internet poderia ser uma aliada para incentivar às crianças a buscar o conhecimento, e não uma inimiga. Como diria o ditado, se você não pode vencer o inimigo junte-se a ele. O tempo passou e as ferramentas de ensino devem mudar, as escolas precisam se adequar a isso. Mas uma coisa permanece a mesma, sem esforço ninguém consegue nada.