sábado, 25 de março de 2017

Vamos falar de sentimentos?



     Medo, raiva, nervosismo, ansiedade, felicidade, amor, agressividade, frustação, etc, são sentimentos que nos acompanham frequentemente. Devemos saber conviver e lidar com esses sentimentos, pois é impossível extingui-los, elimina-los, afinal, fazem parte da constituição das emoções humanas. Muitas pessoas tem dificuldade em lidar com os sentimentos e, muitas vezes, procuram ajuda de um psicólogo para isso.
            As crianças, assim, como os adultos, têm dificuldade em lidar com os sentimentos, porém, eu classificaria essa dificuldade de modo diferente, pois, para os adultos, apesar da dificuldade, os sentimentos estão mais ou menos significados, mas, para a criança, não há qualquer significação sobre esses sentimentos. A criança não entende que ela tem que dividir, não entende que tem horário para comer, dormir, não entende porque ela não pode viajar amanhã, não entende porque ela não faz aniversário toda semana, não entende porque ela não pode comprar o brinquedo que tanto deseja.
            As crianças simplesmente são bombardeadas pelos sentimentos, de modo que, se algo que ela muito deseja e espera não acontece, ela é invadida pela raiva, frustação, ansiedade, medo, etc. Cabe ao adulto significar esses sentimentos para ela, assim sendo, a criança vai entendendo e percebendo que esses sentimentos fazem parte e temos o dever de lidar com eles, principalmente porque vivemos no coletivo e, muitas vezes, os outros ao nosso redor não podem corresponder a esses sentimentos. Isso significa que “mamãe nem sempre tem dinheiro para comprar tudo que eu quero, que papai nem sempre tem tempo de brincar comigo, que meus amiguinhos nem sempre querem brincar com as mesmas brincadeiras que eu, que a professora não pode explicar só para mim, que meus pais não podem dormir comigo todas as noites”.
            Lidar com os sentimentos, significa perceber, que o incomodo tem relação com a impossibilidade do outro em corresponder a tudo que eu espero. Quando converso com os pais, noto, muitas vezes, o quanto eles tem dificuldade em ensinar os filhos a lidarem com os sentimentos. Costumam argumentar que as crianças choram, abrem um berreiro, não aceitam ser contrariadas, como se eles não pudessem fazer absolutamente nada em relação a isso. Como se as crianças já devessem nascer sabendo a lidar com frustações, raiva, medo e até mesmo com o amor, afinal, a pessoa que amamos não está cem por cento disponíveis para nós.
            Normalmente o que os pais precisam perceber, é que, para lidar com os sentimentos de seus filhos devem lidar com seus próprios sentimentos. Para lidar com o medo do filho devem lidar com o próprio medo, para lidar com a frustação do filho devem lidar com a própria frustação, e assim por diante. Como exigir que uma criança lide bem com os sentimentos se nem mesmo conseguimos lidar?
            Assim sendo, qual a melhor forma de os pais lidarem com os sentimentos dos filhos? É assumindo e significando os sentimentos das crianças: “Você está com medo, raiva, frustado... por causa disso...”, dessa maneira as crianças passam a encontrar um nome para o que estão sentindo e assim, fica muito mais fácil lidar com os sentimentos.

            Falar com as crianças sobre sentimentos é, em certa medida, assumir que nós mesmos também somos acometidos por eles, demostrando para criança que sentir é absolutamente normal.

Sobre inclusão nas escolas: acolher para incluir

           


            O que quero de fato me referir com o verbo acolher tem a ver com a aceitação das diferenças. Muito do que ocorre nas escolas é incluir para acolher, ou seja, a criança é depositada na escola e a escola se empenha para que ela consiga, mais que possível, todos os recursos que as outras crianças têm.
            A política de inclusão, do ministério da educação, é um belo e importante material que nos ensina a refletir e praticar a inclusão, porém, ele está muito longe da nossa prática cotidiana nas escolas. O governo disponibiliza condições teóricas, mas não disponibiliza condições práticas e nem formação aos professores para que lindem com essa demanda.
            A inclusão é uma demanda de todos os professores e não apenas de professores especialistas em inclusão. A inclusão está presente em todos os campos da escola, principalmente essa inclusão que se refere às diferenças. Incluir é assumir e acolher as diferenças.
            A escola, em sua origem, não foi concebida para ser inclusiva, mas para ser instrumento de seleção e capacitação dos mais aptos. A escola cria um padrão, padroniza o comportamento e o processo cognitivo do sujeito, o que faz com que a escola funcione como um instrumento de classificação e seleção. Os sujeitos que não se encaixam no padrão que a escola impõe são considerados como sujeitos problemáticos, como se tivessem algum tipo de doença, transtorno ou deficiência.
            O mais complexo nessa relação entre escola e inclusão é que a definição de escola contradiz absolutamente à definição de inclusão. Com essa afirmação quero dizer que a escola, em sua origem, classifica, padroniza, uniformiza e a inclusão propõe exatamente o oposto no sentido de aceitar diferenças e promover a singularidade. Assim uma escola que se propõe a incluir deve rever os conceitos que definem a escola, pois uma escola que inclui não prioriza que todas as crianças sigam um mesmo percurso, mas oferece instrumentos para que as crianças possam seguir percursos diferentes, afinal, nem todos têm o mesmo recurso e habilidade.
            Em uma tentativa desesperada de a escola justificar comportamentos e até mesmo níveis de aprendizagem não padronizados, tudo é reduzido ao biológico. Assim, se uma criança não está alfabetizada, não consegue realizar as operações matemáticas, não lê adequadamente, não se comporta em sala de aula, não socializa, o caminho é investigar qual doença ela tem, desta maneira, os encaminhamentos médico-psicológicos se justificam. Assim sendo, razões como situações de opressão, miséria, violência em que as crianças estão inseridas é desconsiderada.
            A ênfase do comportamento infantil se faz por meio da conduta manifesta e não na estrutura que organiza e orienta a subjetividade. Admito que lidar com estas estruturas subjetivas são de grande custo e angustia, afinal, o campo da subjetividade é o campo da incerteza, porém, padronizar e enfatizar as estruturas objetivas não tem trazido benefícios para as crianças e é nesse sentido que a escola deve rever seus conceitos.

            Rever significa recolocar toda a estrutura institucional da escola de modo que as diferenças possam ser introduzidas para que a criança possa circular de forma autêntica, para que as dificuldades possam ser lidadas e não tratadas, para que o olhar seja direcionado para a criança e não ao comportamento dela. Rever significa que inclusão é acolher e lidar com as diferenças.

Ritalina – um mal necessário?

             Como já venho mencionado, em meus artigos no blog, cada vez mais tenho recebido crianças com queixa escolar, com problemas de comportamento e aprendizagem. Por isso gostaria de falar nesse artigo sobre a ritalina ou o metilfenidato, substância base da ritalina.
         Boa parte das crianças que estão com algum tipo de diagnóstico de déficit de atenção e hiperatividade (tdah) estão fazendo uso da ritalina. Particularmente considero este dado preocupante, por que tantas crianças estão consumindo ritalina? A prescrição excessiva de ritalina para as crianças me faz pensar que o tdah se trata de uma epidemia assustadora.
            Particularmente questiono a existência do tdah. Talvez meu questionamento seja pelo fato de que nunca conheci uma criança que de fato tenha tdah, portanto, não afirmo categoricamente que essa doença não exista, além de eu não ser médica ou não ter feito nenhum tipo de pesquisa sobre o tema, me baseio em minha experiência clínica. As crianças que recebi em meu consultório, mesmo as que chegaram com o diagnóstico de tdah e tomando ritalina, não acredito que tenham, de fato, a doença. Minha crença não vem apenas de um achismo, ou até mesmo de uma análise sintomática superficial. Minha critica se baseia em conversa com os pais, análise do cotidiano, rotina da criança e ainda, avaliação com a própria criança, assim, me atrevo a ficar restrita a minha experiência clínica para discutir o tema.
            Normalmente os pais se queixam do comportamento inquieto da criança, que ela não para quieta, que ela não consegue se concentrar que não presta atenção e por conta disso, tem dificuldades de aprendizagem na escola. Quando questiono sobre a rotina da criança, muitas vezes, a maioria, não tem rotina. Não tem horário para acordar, fazer as refeições (a maioria, inclusive, não faz refeições na mesa, em família, as crianças comem na frente da televisão), não tem horário para dormir, tomar banho, fazer a lição, etc. Fico pensando sobre o quão complicado é uma criança sem rotina e pior, de uma criança que decide sobre a rotina.
            As crianças, atualmente, estão sendo hiperestimuladas. Comem na frente da tv, brincam com o tablet, jogam no vídeo game, assistem filme no computador. Na minha infância eu tinha que esperar o horário do desenho que eu queria assistir, hoje em dia a criança é bombardeada por canais exclusivos de desenhos, em que ela pode escolher a qualquer momento qual quer assistir. Para que esperar?
            Sobre crianças com dificuldade de aprendizagem, questiono sobre a hora que estudam ou fazem a lição. A resposta é que esse momento não existe, assim, como uma criança que não faz lição, não presta atenção na aula, não estuda pode aprender? Outro perfil é a criança que aprende com facilidade, mas não para quieta na sala de aula. Esse caso me aprece óbvio que a criança não tem interesse na aula, pois ela já apreendeu o conteúdo, ela não precisa prestar atenção.
            Frequentemente pergunto aos pais se o médico questionou sobre a rotina da criança, sobre a relação familiar, sobre o histórico escolar da criança e a resposta quase sempre é NÃO. Como um médico pode fazer um diagnostico de tdah sem esses dados? Isso seria possível?
            O número de diagnóstico de tdah é assustador, e só pelo fato desse excesso de diagnósticos, já se coloca em questão sobre a seriedade dos mesmos e se de fato, esses diagnósticos realmente procedem, por isso faço um apelo aos pais, cuidado! Cuidado com a prescrição de medicamentos, cuidado com o diagnóstico de tdah. A ritalina tem efeito colateral, é uma droga estimulante e seu consumo tem implicações sérias.
            Muitas vezes acredito que a criança está carregando o fracasso de um sistema educacional, de uma família desautorizada, e de profissionais de saúde poucos dispostos a ouvir.

            Ritalina, um mal necessário? Por enquanto eu me arrisco a dizer desnecessário, quem sabe uma criança que de fato, tenha tdah me prove o contrário. Estou esperando há dez anos, e por enquanto, vou continuar esperando.


O risco em diagnosticar transtornos mentais na infância

         
Muitas vezes, quando a criança é encaminhada para um acompanhamento psicológico, ela já vem com diagnóstico pré-estabelecido por alguma especialidade médica. Noto que a especialidade médica mais resistente em diagnosticar crianças são os pediatras. Acho que este fato se justifica por lidarem muito com o desenvolvimento de seus pequenos pacientes e, por conta disso, sabem que as crianças podem mudar muito durante o percurso do desenvolvimento.
            O encaminhamento para atendimento psicológico, pelo convênio médico, deve ser feito através do diagnóstico de um médico, assim, para alguém, utilizar desse serviço, o sujeito deve ter uma doença.
            De forma geral, acho que o diagnóstico em saúde mental é uma questão extremamente delicada. A saúde mental se caracteriza por aspectos absolutamente subjetivos. O manual de diagnóstico de doenças mentais (DSM) é baseado exclusivamente em sintomas. Assim, para um sujeito receber um diagnóstico o médico irá avaliar se a pessoa tem o número de sintomas suficientes que caracterizam tal transtorno mental. Não existem exames que apontam o transtorno mental, o diagnóstico é feito apenas, mediante os sintomas. Diante de tal cenário podemos avaliar a fragilidade em se fazer um diagnóstico psiquiátrico.
            Quando pensamos no diagnóstico em transtorno mental na infância, a questão se torna ainda mais delicada por alguns motivos: a criança é um sujeito em desenvolvimento, assim sendo, a estrutura psíquica de uma criança pode ser definida como “não decidida”, assim:         “Para estruturar-se como sujeito, a criança depende irremediavelmente de um Outro sustentado por um agente de linguagem, personagem que lhe nutrirá um desejo, dirigindo-lhe demandas, o que propiciará o seu desenvolvimento”. (Petri, 2008:44)*.
            Podemos caracterizar a infância como o tempo da constituição subjetiva, período este, que finaliza na adolescência. Desta forma o risco de engessarmos a criança em um período em que ela deve estar disponível ao movimento, à transformação é, muitas vezes, comprometer muito mais o processo de desenvolvimento do que contribuir.
            No processo de subjetivação na infância, o lugar que ela ocupa com os pais, no campo social, também caracteriza como fundamental para esse momento. A criança é dita pelos seus pais, é dita pela escola, a criança não diz sobre si mesma, assim, a partir do discurso do outro ela significa sua subjetividade. Por esse motivo considero muito importante a atuação de profissionais que lidam com crianças, seja ele do campo da educação ou do campo da saúde. Não podemos atestar o fracasso da criança, ao contrário, devemos proporcionar espaços e possibilidades, seja na família, seja na escola, em que a criança possa se desenvolver de maneira saudável e segura.
           
Para finalizar menciono uma vinheta clínica durante meu atendimento com uma criança:
Criança: Camila que doença eu tenho?
Eu: Por que você está me perguntando isso Lucas? (nome fictício)
Criança: Porque eu vou a muitos médicos.
Eu: Você não é doente e acho até que você nem precisa ir a muitos médicos. Eu te acho bastante inteligente.
Criança: Você acha? Será que a minha mãe acha?
Eu: Quer perguntar pra ela? Podemos chamar ela aqui.
Criança: Quero sim!
A mãe entrou na sala de atendimento e imediatamente a criança perguntou se ela o achava inteligente, ao que a mãe respondeu que sim e ainda enfatizou, “muito”. Após um sorriso e suspiro da criança, encerrei a sessão.

*Referência da citação: Petri, R (2008) Psicanálise e infância. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Que lugar a escola está oferecendo às crianças?

Sobre o que escrever para o primeiro texto a ser publicado em 2016? Esta questão me fez pensar muito sobre o tema que eu desejaria discutir e ainda melhor, que tema as pessoas gostariam de ler. Na verdade essa é a parte mais difícil, encaixar meu propósito de discussão com o interesse das pessoas que se interessam em refletir sobre a condição da criança.
            Para pensar sobre os temas, a minha maior inspiração, acaba sendo meu trabalho clínico no consultório, me baseando na angústia das pessoas, no sofrimento das crianças e nos questionamentos das famílias. Como já mencionei algumas vezes me interesso em trazer uma demanda geral, que recebo no consultório, sem, considerar a singularidade de cada caso, pois seria impossível apreender essas especificidades.
            Não quero reduzir os temas a serem discutidos neste ano a um só, porém não posso desconsiderar uma questão que há muito vem me inquietado e que pretendo trazer para discussão muitas vezes. Esse tema se refere às queixas escolares. Com certeza o maior número de encaminhamento que recebo para atendimento de crianças tem a ver com alguma queixa escolar, seja ela, problemas de aprendizagem, seja ela, problemas de comportamento.
Recentemente, a mãe de uma criança encaminhada para atendimento pela escola, me fez um relato realmente assustador. Ela mencionou que a criança ainda não estava frequentando a educação infantil, porém no dia em que a mãe foi fazer a matrícula da criança na escolinha, um momento de extrema importância, pois se tratava da matrícula que representava a entrada da criança na escola, por coincidência, a coordenadora pedagógica da escola estava presente e observando o comportamento da criança na hora da matrícula, ela já sugeriu que a mãe levasse o filho ao psicólogo, sem nem mesmo conhecer a criança, apenas baseada em um comportamento manifesto.
            Considerei esse encaminhamento o mais bizarro que já recebi de uma escola. Classifico a intervenção dessa coordenadora como absolutamente preconceituosa, assustadora e antiética. Afinal, no que as escolas estão se transformando? Cada dia fico mais assustada com a atuação da equipe escolar, mas em contrapartida, também não posso desconsiderar a atuação de algumas professoras que classifico como admirável e exemplar e que fazem toda diferença na vida de uma criança, mas, infelizmente, essas professoras não têm liberdade de exercerem seu ofício, pois precisam estar engessadas em uma burocracia educacional que privilegia um sistema em detrimento da criança.
            Recentemente reli a política de inclusão do ministério da educação. Para os profissionais da área da educação, considero esse material, precioso e acho interessante que todos possam ler. O olhar que a política propõe, para lidar com o sujeito, é realmente relevante no sentido que não só os aspectos físico, biológico e manifesto devem ser levados em consideração, assim como, os aspectos psíquicos, subjetivos e latentes que, na maioria das vezes, são desconsiderados. Porém me questiono sobre o fato do lugar que essa política vem ocupando na escola, pois, esse mesmo ministério que produziu um material tão útil para inclusão, ao mesmo tempo cobra das instituições escolares, números, estatísticas, diagnósticos e desempenho de professores e alunos, desconsiderando o contexto específico dos mesmos.
            Que lugar estamos proporcionando para nossas crianças nas escolas? Como oferecer para essas crianças uma educação em que a subjetividade possa ser considerada sem correr o risco de produzir uma educação automatizada que não causa qualquer significação para a criança?
            Nem toda criança é boa em matemática. Nem toda criança é boa em português. Tem toda criança gosta de educação física. Nem toda criança gosta de participar da aula. Nem toda criança para quieta. Nem toda criança gosta de conversar. Nem toda criança gosta de ler. Nem toda criança...
            As crianças são diferentes e o papel da escola é justamente considerar essa diferença e não tentar uniformizar o comportamento infantil. Alguns aspectos da personalidade da criança podem ser desenvolvidos com a intervenção escolar, mas a escola só poderá intervir se conhecer e considerar o aluno, a criança, o sujeito.

            Qual a melhor forma para alguém ter sucesso na vida? Eu me ariscaria em responder: seja você mesmo e é isso que acho que as escolas deveriam ensinar para as crianças e não o contrário: “se você for você mesmo, será um fracassado”. 






terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A queixa escolar que invade os consultórios de psicologia

        Sem sombra de dúvidas a maior demanda que recebo em atendimento com crianças está relacionada à queixa escolar, dividida entre duas principais queixas: problemas de aprendizagem e comportamento.
            Muito tenho pensado sobre o perfil dessas queixas e o quanto elas tem sido cada vez mais frequentes. A maioria das crianças, com queixa de dificuldade de aprendizagem, tem entre seis e sete anos, estão no primeiro ano do ensino fundamental e não estão alfabetizadas. O encaminhamento da escola, normalmente, é acompanhado de um relatório. Os relatórios costumam ser quase um padrão entre as escolas, com algumas afirmações como: ainda não está alfabetizado, brinca durante a aula, é muito disperso, não se concentra para fazer a lição, provoca os colegas. Essa é a base das características que é designada a essas crianças.
            Quando leio os relatórios sempre me pergunto: mas o que tem de errado nisso? Uma criança de seis anos não quer brincar? Uma criança de seis anos vai ficar quietinha? Uma criança de seis anos tem que estar, necessariamente, alfabetizada?
            Todas estas questões me remetem a outra: a antecipação do ensino fundamental. Quando eu tinha seis anos eu estava na pré-escola, hoje as crianças estão no primeiro ano do ensino fundamental. Na educação infantil o que mais caracteriza o ambiente escolar é o lúdico. As estratégias pedagógicas estão voltadas para brincadeiras, pois o que uma criança da educação infantil mais quer, é brincar. A criança deve de fato, brincar, pois, brincar faz parte da sua constituição subjetiva, através do brincar ela lida com seu mundo interno, elabora conflitos, conta sobre a vida, assim, o que toda criança deve fazer é brincar e quando leio em um relatório que uma criança de seis anos quer brincar, fico muito satisfeita, pois uma criança de seis anos deve querer brincar.
            Por que uma criança de seis anos não pode mais brincar? Acredito que este fato só tenha antecipado o fracasso escolar, que ainda mais cedo, as crianças são consideradas incapazes em aprender.
            Durante o atendimento quando estou pintando ou brincando de massinha com a criança, recorrentemente, algumas me dizem: “quando eu ia à Emei (educação infantil), eu pintava e brincava de massinha. Agora não, só faço lição”. Que triste afirmação! Que triste uma criança de seis anos não pintar e não brincar de massinha, agora ela só faz lição e o desempenho acadêmico é mais exigente, a criança é pressionada, os pais são pressionados.

            Acredito que essa quantidade, quase epidêmica, de encaminhamentos de crianças feita pelas escolas, para consultórios de psicologia, na verdade, revelam não um sintoma da criança, mas um sintoma de um sistema educacional que urgentemente precisa ser tratado. 


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Entre a doença e a existância: uma reflexão sobre os dilemas em saúde mental

            A reflexão que proponho tem a ver tanto com a clínica com crianças como a de adultos. O que leva um sujeito a procurar um atendimento psicológico? A diferença entre criança e adulto é que a criança é levada pelos pais e tem a queixa formulada pelos mesmos.
            Tanto os pacientes adultos, quanto os pais das crianças parecem procurar um psicólogo para a cura de uma doença. Estão presos a um diagnóstico e nos sintomas que estão sentido. O diagnóstico parece de certa forma, sinalizar o sintoma e a expectativa diante do tratamento psicológico.
        Eu, particularmente, prefiro encarar o sofrimento em saúde mental, como um problema relacionado à existência e não a doença. Entendo que o sintoma tem uma forte relação com a existência e não a doença. A queixa do sujeito se relaciona a sua existência e não a doença. Estar preso à doença, provavelmente, fará com que o sujeito fique engessado no mesmo lugar, para o deslocamento, é importante que questione a própria existência e por consequência, avalie a responsabilidade que tem diante do sintoma.
            Um sujeito adulto deve questionar suas relações, sua postura diante do outro e da vida, suas escolhas e isso tem a ver com a existência e conforme o percurso de cada um, pode trazer muito sofrimento ao sujeito. Com a criança devemos questionar como os pais estão se posicionando diante do filho. Coloca limites? Estabelece regras? Acompanha a vida escolar? Incentiva a independência? Ensina esperar? Mostra para os filhos que não estão cem por cento disponíveis para eles? Oferece afeto? Enfim, muitas outras questões estão em cheque nesse momento. Devemos assim, mostrar aos pais, que o sintoma dos filhos tem total e absoluta relação com eles mesmos e não única e exclusivamente com a criança.
            Através do atendimento com as histéricas, Freud já nos sinalizava a importância da palavra do sujeito em sofrimento psíquico. Através da palavra o sujeito faz uma articulação entre o sofrimento e a existência e passa a se responsabilizar sobre o próprio sintoma, assim, sai da condição se vítima para a condição de protagonista de sua existência.

            Deixamos a doença para a clínica psiquiátrica, já a existência, acredito fazer parte da clínica psicanalítica, da clínica que convoca o sujeito a responder em lugar do sintoma, da clínica que acolhe a dor, mas que não pode deixar de falar sobre ela. Para quem estiver disposto, seja bem vindo!